quarta-feira, 21 de junho de 2017

Solar: História de Origem [HQs]


Um das minhas paixões literárias mais brilhantes é a tal da História em Quadrinhos, desde criança tenho vontade de ter uma coleção gigante de HQs, mas preciso confessar: nos meus sonhos a coleção era feita de mangás. Só nos últimos anos comecei a olhar com afeto para o formato ocidental e passei a colecionar Graphics Novel, Marvel, DC e os autores nacionais.

Nesse contexto, minha vida com HQs tem sido uma aventura, um processo de descoberta no qual "Solar: História de Origem" ganhou um lugar especial e aconchegante. Nele somos apresentados a um super heróis brasileiro com direito a super poderes dialogando diretamente com os universos Marvel e DC, porém sem ligações diretas com ele.

Gabriel, protagonista da trama, filho de uma antropóloga com um xamã de uma das muitas tribos sobreviventes da Amazônia, um belo dia ele se ver visitando um sitio arqueológico e tem sua atenção cativada por algumas das pinturas rupestres. Com a força de um imã a pintura o convida ao toque, ele não resiste e tem um momento único, um tipo de despertar, algo que atordoa, queima e liberta algo dentro dele. Após esse momento entre as pinturas rupestres a aventura de Gabriel começa.

Claro, como um bom primeiro volume, a história precisa ser apresentada, o herói precisa descobrir seus poderes, encontrar um assistente, salvar pessoas e ter alguma revelação sobre seu passado. Tudo isso acontecer em "Solar: História de Origem" e deixa o leitor extremamente entusiasmado com a leitura. Wellington Srbek, Abel Vasconcelos e Cleber Campos tiveram o cuidado de retratar na arte a diversidade étnica do povo brasileiro, das cidades brasileiras e seus problemas de urbanidade.

 Foi uma delícia descobrir esse herói brasileiro! Recomendo muito!

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Peter Pan de J. M. Barrie [Literatura Infantil]

  
Se eu tivesse me auto-desafiado a ler e resenhar clássicos da literatura infantil e contos de fadas em 2017, não estaria lendo e resenhando com tanta frequência esses gênero. Como não me auto-desafiei, aqui estou para comentar mais um clássico da literatura infantil.

Ou, talvez, essa volta ao mundo literário da infância tenha a ver com a incrível sensação de vazio na qual me sentir envolvida, as vezes ainda me sinto, há algum tempo atrás. De muitas formas literatura infantil quando bem feita tem qualquer coisa pronta a abraçar; acolher; levar em conta o fantástico, o misterioso, o inexplicável; e, mesmo dentro de uma enorme complexidade, a literatura infantil é simples, simplicidade nesses momento é tudo.


A primeira sensação que tive lendo J. M. Barrie foi de uma profunda nostalgia da infância, existe qualquer coisa em nós que não sobrevive a infância. Esse sentimento foi intensificado ainda mais pela experiencia de ler a história em uma edição completamente ilustrada por Eric Kincaid.

Amo edições de bolso, são charmosas, cabem na bolsa e na palma da mão, mas nada produz uma imersão tão grande no mundo infantil e nas memórias de infância quanto ler um livro infantil em formato de livro infantil. Ler livros assim fazem o tempo voltar, me senti com nove anos de novo, senti saudades das minhas edições há muito desaparecidas de Simbad e Ivanhoé e da minha própria Terra do Nunca.


Quanto a história do Peter, apesar do quanto ela foi explorada pela mídia nas ultimas décadas é impressionante o quanto a narrativa de Sir James Matthew Barrie ainda tem a dizer.

Barrie conta a história de um menino em situação de rua, desamparado que vive com outras crianças em situação de rua e desamparadas na Terra do Nunca, um lugar no qual essas crianças são chamadas de "meninos perdidos" e não crescem. Toda aventura narrada no livro começa quando quando Peter rouba Wendy e seus irmãos do conforto do seu quarto as vésperas do Natal e os levar voando para essa terra de maravilhas e aventuras.

Confesso que várias vezes me peguei pensando se a aventura dessas crianças se deu em um mundo a parte ou se eles simplesmente vagaram pelas ruas de Londres e a imaginação infantil fez o trabalho de transformar a realidade em magia.


Quando Peter explica a Wendy sobre a origem dos meninos perdidos foi impossível não lembra do "Capitães de Areia" de Jorge Amado e daquelas crianças em situação de rua vivendo a aventura de existir a margem pelas ruas, becos, vielas e praia de Salvador. É desalentador pensar em crianças perdidas, se unindo para sobreviver, usando dos recursos da infância para enfrentar piratas e perigos.
"São os meninos que caem dos carrinhos quando as babás não estão olhando. Se não forem reclamados em sete dias, são mandados para longe, para a Terra do Nunca. Sou o chefe deles."
Muita gente se choca com a falta de limites morais de Peter, com a facilidade com a qual ele é capaz de sequestrar, matar e mutilar. O Capitão Gancho as vezes parece uma vitima e os piratas são homens para lá de desamparados, mas eu me pergunto, o que se pode esperar de uma pessoa a quem até o prazer de ouvir uma história é negado?

As "crianças perdidas" não contam com nenhum adulto para cuidar delas, vivem escondidas, a margem da sociedade em mundo cheio de possibilidades para aventuras, porém no qual é possível se passar inclusive fome. É verdade que existe Sininho, a fada mais ciumenta do multiverso, que é adulta e vive com as crianças, porém ela não assume o papel de cuidadora em momento algum.

E sobre ausência de adultos, é mentira dizer que na "Terra do Nunca" eles não existem. As sereias, os indígenas e os piratas são adultos, porém estão ocupados demais vivendo suas vidas e cuidando de suas próprias crias, para se ocuparem daquele bando de "pestinhas". E nesse ponto lembrei do Chaves do Roberto Gómez Bolaños vivendo em um barril, eternamente faminto, constantemente humilhado pelas crianças da vizinhança e tolerado pelos adultos por não ser violento. 


Ninguém humilha Peter e as crianças perdidas, pois elas são violentas, agressivas e só obedecem suas próprias regras. Vez ou outra tem um ato de generosidade aqui e ali pelo qual são recompensadas e também são capazes de estabelecer alianças, mas sob ameaça elas sempre reagem com ferocidade.
"- Sabe, disse Peter - não conheço história alguma. Os meninos perdidos também não.
- Que coisa! disse Wendy.
- Você sabe, perguntou Peter - por que as andorinhas constroem ninhos no beiral das casas? É para ouvir as histórias que contam para as crianças, à noite..."

As crianças perdidas são livres, assustam quando exercem sua liberdade e comovem quando mostram o quão carente de mães são. Uma vez instalada na toca das crianças Wendy vira a mãe de todas elas e com amor maternal assume todas as funções de mãe como se brincasse de casinha. Não é a toa que com o tempo a melancolia toma conta da menina e o desejo de voltar para casa surje em seu horizonte, para ela a Terra do Nunca não é nada lúdica.

E sobre carência de mãe, também me comove ao extremo a carência dos piratas. Para mim, eles são os meninos perdidos que sobrevivem a infância e Peter Pan não é um nome próprio e sim o titulo dado ao chefe dos meninos perdidos, uma vez adulto ele vira o Capitão Gancho em um ciclo sem fim. E isso me lembra a vida das crianças em situação de rua.
"- Pan, perguntou ele - quem é você?- Sou a juventude, sou a felicidade, respondeu Peter. - Sou um passarinho que acabou de sair do ovo.Era um absurdo, claro, mas, para o infeliz Gancho, era prova de que Peter não sabia quem era."

No mais, Peter Pan é uma história cheia aventura, magia. Recheada com seres fantásticos, magica, sensibilidade e provocações. Mesmo agora muito se pode falar sobre ela, é um clássico em si, uma história feita para provocar que não duvida da capacidade de compreensão do leitor e o leva a pensar sobre a realidade. Estou apaixonada por essa história!

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Princesas, Bruxas e uma Sardinha na Brasa [Literatura Infantil]


Sou apaixonada por contos de fadas, tanto por pura paixão literária quanto por todo potencial didático que o gênero contém em si. Além de seu potencial lúdico, sendo textos gostosos de se ler, também guardam em si muitos dos valores culturais das sociedades que os criaram e portanto são ótimos instrumentos para provocar debates e nos fazer pensar e repensar a vida.

Encontrar livros de contos de fadas não é algo difícil, autores e as editoras tem plena consciência do apelo desse gênero literário entre professores e crianças e não economizam nos lançamentos. Difícil mesmo é encontra livros nos quais os autores consigam equilibrar o caráter didático e lúdico do conto e construírem um texto tanto provocativo quanto bonito e divertido de ler. Não é um exercício tão fácil encontrar livros tão equilibrados quanto "Princesas, bruxas e uma sardinha na brasa".


Contando com Helena Gomes e Geni Souza no texto e Alexandre Camanho na arte, o livro possui oito histórias nas quais os personagens femininos ocupam lugares centrais como heroínas, vilãs, nem com uma coisa nem outra. De maneira inteligente as autoras revisitaram contos clássicos da literatura mundial, dialogaram com eles e criaram histórias nas quais o protagonismo feminino é explorado fugindo de esteriótipos ou até mesmo questionando eles.

Entre as histórias das autoras exploram as necessidades e buscas femininas - talvez até feministas - por educação escolar, letramento, liberdade, amizade e cumplicidade. Coisas que vão muito além de um casamento vantajoso com um príncipe com o qual se cruzou em um baile.


E se as autoras discutem o papel feminino na sociedade e dão voz aos nossos anseios, o Alexandre Camanho da cor e forma aos textos e se eu fiquei apaixonada pela arte dele em "Dragões, maçãs e uma pitada de cafuné" agora eu cheguei no nível do amor. As ilustrações casam lindamente com o texto e fazem do livro uma coisa linda para se ter na estante.


"Princesas, bruxas e uma sardinha na brasa" é o volume 2 da coleção "Contos e Contadoras" lançada pela Editora Biruta na qual as autoras usam o gênero conto de fadas para discutir temas relevantes sobre a sociedade na qual vivemos. No vol. 1 "Dragões, maçãs e uma pitada de cafuné" o tema foi ética, no vol. 2 foi o papel da mulher, o próximo, "Reis, moscas e um gole de morte" vai discuti sobre justiça e eu já estou ansiosa para conferir o resultado.

Se você ficou curiosa ou curioso com os livros e quiser da uma olhadinha na parte interna deles e nas primeiras páginas no site da Editora Biruta da para conferir as primeiras páginas do livros é só clicar AQUI para conferir "Princesas, bruxas e uma sardinha na brasa" e AQUI para conferir "Dragões, maçãs e uma pitada de cafuné". A editora também tem uma lojinha vitual na qual a gente pode encontrar todos os livros por um bom preço.

domingo, 7 de maio de 2017

Monstro do Pântano: Raizes


Encontrei com o vol. 1 da HQ "Monstro do Pântano: Raízes" integrante da coleção "Clássicos DC" na banca onde costumo comprar mangás e por muito ter ouvido falar desse personagem resolvi aproveitar a oportunidade de conhecer as origens do personagem pessoalmente e adorei.

Fiquei fascinada com o roteiro de Len Wein, a arte de Bernie Wrightson e a forma como eles construíram seu personagem dialogando clássicos da literatura ligados ao terror. Nos dois volumes da coleção "Clássicos DC" que reúne os 13 primeiros volumes da "Mostro do Pântano" publicados originalmente na década de 1970.


A primeira aparição do Monstro do Pântano foi na revista "The House Of Secrets" na qual é contada a história do jovem cientista Alec Olsen que possui uma vida feliz com sua bela esposa até ser vitimado pela inveja de um amigo e então se transforma em um monstro. A história de como Olsen se transforma no monstro verde e musgoso é contada em oito páginas e jamais é retomada quando Len Wein e Bernie Wrightson decidem a pedido dos chefões da DC retomar a história ele elaboram um começo novo.


Na série imortalizada por filmes, séries de tv e derivativos, o protagonista é o doutor Alec Holland o qual se muda para um galpão em um pântano para junto com sua esposa Linda Holland pesquisar uma formula para fazer vida vegetal florescer nos lugares mais áridos do mundo. Quando os dois começam a ter sucesso em sua empreitada chamam a atenção de criminosos cujas astucias transformam o doutor no Monstro do Pântano e destroem a vida de sua esposa.


Transformado em uma forma de vida vegetal o doutor Alec Holland em um primeiro momento não consegue se comunicar com as pessoas e acaba sendo caçado por amigos e alvo de sequestro, tramoias maquiavélicas e hostilidades que o lançam em diversas aventuras.

Nessas aventuras ele será obrigado desbravar castelos medievais localizados nas montanhas elevadas dos Bálcãs, encontrar com monstros sintéticos dignos de botar medo no próprio Doutor Victor Frankenstein, lobisomens em charcos obscuros, bruxas injustiçadas, fantasmas de escravos vingativos, dinossauros, viajantes do tempo, extraterrestres e até mesmo o Batman.


No entanto, o Monstro do Pântano é dotado de força e inteligencia, ele é quase indestrutível então pouco a pouco vai superando seus inimigos e até alguns amigos pelo caminho.


Cativante, com pinta de socialmente excluído, fora do padrão branco, alto, olhos claros tipo Batman ou Superman, o Monstro do Pântano é herói com estética de vilão e não por acaso os amigos que ele encontra pelo caminho também são personagens historicamente marginais como bruxas injustiçadas ou fantasmas de homens negros vitimas da escravidão.

Agora me digam, como não amar um personagem assim? Acompanhei as 13 aventuras escritas pelo Len Wein gostando muito de tudo e larguei ele com pena, desejando um reencontro futuro com essa criatura atormentada pela alegria que perdeu e pela incerteza do futuro.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Sense8 - Primeira Temporada


Não sou uma pessoa muito afeita a assistir séries, fazer maratona vendo milhares de episódios por dia e coisas do gênero. Apesar de ter interesse em várias produções, raramente me pego vendo alguma coisa, hoje, até mesmo ver filmes é uma atividade rara para  mim. Quando alguém questiona o porquê de ter assinado um serviço como a Netflix geralmente eu respondo: tenho irmãos e enquanto eles vem coisas eu fico em paz para ler.

Apesar de minha atual aversão a séries e derivativos durante o feriado de Páscoa uma amiga comentou sobre Sense8 e, em um impulso de momento, decidi para e ir conferir a série. Em consequência desse impulso, fiquei encantada com a sensibilidade da produção, morri de amores pelos protagonistas e coadjuvantes, ainda estou sob os efeitos da história.


Sense8 conta o que ocorre com a vida de oito pessoas espalhadas pelos muitos cantos do mundo quando elas descobrem possuir uma conexão profunda entre si e são capazes de partilhar emoções, sentimentos, memórias, habilidades, consciência e até mesmo seus corpos uns com os outros. Na contramão do que o senso comum poderia supor, em vez de entrar em conflito um com o outro essas oito pessoas, apesar de serem diferentes mesmo, não tendem ao conflito, elas caminham para o entendimento e esse é um dos pontos altos da série.

A ligação entre os sense8 é uma ligação empática, todos partilham a mesma condição no mundo, apesar de diferenças de gênero, cor, sexualidade, profissão e credo pertencem a uma unica especie e procuram compreender, ajudar e proteger um ao outro em meio as mais diversas situações que surgem em suas vidas.


Há, é claro, toda uma trama com conspirações, segredos, perseguição e o perigo iminente de que alguém do grupo seja assassinado a qualquer momento. Porém esse não é fio que me prendeu a história e seus personagens. O que prende é o fato de ser um trabalho surpreendentemente sensível as sutilezas das relações humanas. O roteiro privilegia as contradições nas relações, os traumas, afetos, perdas e ganhos característicos da vida familiar, amorosa ou mesmo das relações entre amigos.

Os diálogos são incríveis, as considerações e histórias dos personagens são mostradas com uma sensibilidade capaz de desconstruir tabus corriqueiros, desmontar o senso comum e nos fazer olhar para o outro com mais ternura a ponto de perceber o quanto poderíamos ser próximos caso nos permitíssemos forjar com convivência uma ligação independente do quanto o outro é diferente da gente.

Fiquei encantada com a série, com o enredo, com os personagens, a trama e a trilha sonora que me abraçou durante os desfechos de cada arco narrativo ajudando a assentar os sentimentos fortes e conflitantes despertados pela história.


Nosso mundo nunca foi tão conectado, de muitas formas nos últimos 500 anos nossa especie na contramão de qualquer sonho de mundo de ficção cientifica investiu muito mais em comunicação do que em qualquer outra coisa e ainda assim nós nos desentendemos. Se a tecnologia nos conecta nossa falta de empatia com o outro nos separa em ondas intolerância religiosa, racismo, transfobia, homofobia, machismo e interesses econômicos postos acima de tudo e qualquer coisa.

Assistindo a série eu me pego pensando que entre os sense8 esses conflitos são dissolvidos pois como eles partilham tudo o que são entre si as incompreensões se diluem... Eles se escutam intimamente e de repente se percebem como partes diferentes de um organismo único, sendo oito se tornam um e vice versa muitas e muitas vezes ao longo dos episódios.

Me ocorreu muitas vezes enquanto via essa série que essa história estranha com ares de ficção cientifica oferece uma possibilidade complexa e ao mesmo tempo simples para a resolução daquilo que atormenta nossa especie: empatia, conexão, ouvi o outro. Olhando de perto somos semelhantes, olhando de perto o outro deixa de existir e se transforma em próximo.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Citação 012 [Ícaro]

Ícaro do Recife. Monumento a Sacadura Cabral e Gago Coutinho na Praça 17 no centro do Recife.
"Ícaro! Não é que tenha esquecido de todos os nomes. Lembro-me de Ícaro. Voou próximo demais do sol. Entretanto, nas histórias, valeu a pena. Sempre vale a pena tentar mesmo quando falhamos, mesmo que você entre em eterna queda livre como um meteoro. Melhor ter ardido na escuridão, ter inspirado outros, ter vivido, do que ter ficado sentado nas trevas, amaldiçoando aqueles que tomaram emprestado sua vela e não a devolveram." (Neil Gaiman, em "O homem que esqueceu Ray Bradbury do livro "Alerta de Risco")
Quando Neil Gaiman resolve escrever para homenagear Ray Bradbury, o incrível autor de Fahrenheit 451 não podia da em nada menos que um daqueles textos incríveis de fazer chorar sozinha ou na companhia serena do gato.


terça-feira, 4 de abril de 2017

Vazia...

Houve uma época na qual eu me sentia mais preenchida, então era mais fácil escrever. Agora me sinto meio vazia então é mais difícil simplesmente chegar e transformar ideias em palavras, frases, parágrafos inteiros.

As vezes também me ocorre de pensar sobre a correção das palavras, dos sinas, da pontuação, da concordância, coesão, coerência etc e isso me afasta mais ainda dos exercícios de escrita.

Sempre me embananei com pontuação, erres, esses, cedilhas e o escambau. Sempre fui de cometer erros de fazer rir e chorar, porém nunca antes minhas deficiência de escrita pesaram tanto. Nem mesmo quando eu escrevia páginas e páginas a mão nas provas imensas do curso de história.

Nessas provas era convidada a dissertar sobre isso e aquilo a luz desse e daquele autor e minha compactor 07 deslizava sobre o papel pautado com uma fúria deliciosa. Eu tinha confiança, amava aquelas provas imensas que demoravam quatro horas de relógio para serem construídas... Hoje me pergunto se seria capaz de fazer esse tipo de coisa e duvido seriosamente.

Eu também já fui amiga das cartas longas... muito longas... páginas e páginas... Nunca fui econômica com nada na vida então não via motivos para economizar palavras e escrevia e escrevia... Faz tanto tempo que não escrevo uma carta que já me causa vergonha. Faz nove meses que tento escrever uma carta para uma amiga e não consigo... escrevo uma página e jogo fora então recomeço... e recomeço... parece mentira, mas é verdade... já tive que comprar um caderno novo porque o esforço dessas reescritas levou um embora.

As vezes acho que perdi a segurança e a substancia... Ainda escrevo resenhas, mas só Deus sabe quanto trabalho cada paragrafo demanda... E o quanto olho as resenhas publicada sentindo que faltou algo e me perguntando o quanto o editor precisou intervir para o texto não ficar de dar vergonha alheia ou vergonha minha.

Eu tento me preencher das coisas aqui e ali, não perco chances de viver uma experiencia nova e quando ela surge vou lá viver... ver... andar... ler... provar... mas as vezes pareço um poço sem fundo. Nada me preenche completamente e o fluxo das palavras no papel, no blog, nos cadernos, nas cartas não anda e me sinto em divida e vazia...

Se isso for um tipo de fase, que fase difícil que é!

Digo a mim mesma "isso também passa", mas tenho dificuldades de me ouvir. Me pego, aliás, descobrindo fascinada o encanto de não ouvir minha própria voz... Uma sensação estranha para quem fala sozinha.

E sim, esse é um daqueles textos confusos que uma pessoa em sã consciência não publicaria, mas eu não mantenho um blog há tanto tempo para posar de pessoa com sã consciência.

Preciso desabafar! Estou desabafando, afinal o silêncio nunca me ajudou a tomar decisões e quebrar a banca. Sou do tipo que precisa gritar, nunca se sabe se alguém está passando pela beira do poço e de repente... sei lá o que pode ocorrer de repente... 

domingo, 26 de março de 2017

Jonas e o Circo Sem Lona


Por esses dias a Tina, que conheci através do Blog da Tina, me contou através das redes sociais a respeito do filme-documentário "Jonas e o Circo Sem Lona" em cartaz no Cinema São Luiz. Obviamente não me permitir perder a chance de ir e, como a experiencia foi significativa, também não me permito deixar de fazer um registro.

O documentário aborda como Jonas, um adolescente cuja família nasceu e cresceu no circo, porém decidiu deixar a lona e seguir outro rumo. Ele simplesmente não se adapta a essa vida sem circo, então, estimulado por seu desejo e apoiado pela avô, decide montar um circo no quintal de casa junto com seu grupo de amigos.


Ao longo do filme nós acompanhamos a experiencia mágica do Jonas de criar e administrar seu circo no quintal em meio ao banho de água fria do cotidiano vivenciado no subúrbio de uma grande cidade colonial.

Nos subúrbios as mães conscienciosas como a do nosso garoto sabem que crianças não podem ser entregues unicamente ao luxo de viver seus sonhos, elas precisam bem cedo encarar as realidades da vida, como por exemplo a necessidade urgente de obter o máximo de educação escolar possível. Toda a rotina vivenciada pelo menino e sua família me foi muito familiar, eu me senti em casa na verdade.


É comovente acompanhar a luta da mãe do garoto para prover sua família e manter Jonas na escola regular. Ela parece está constantemente nadando contra a maré dos desejos dela e dele, mas permanece firme na direção que considera a melhor possível para ele.


É desamparador perceber o quão infeliz o menino é na escola que não desperta nele interesse algum. A educação escolar para ele é um grande blá blá blá sem utilidade muito clara e, naturalmente, ele vira as costas para a escola. Aliás, acho compreensível uma criança/adolescente não compreender a importância da escola ou o quanto ter acesso a ela é um direito duramente conquistado e não uma imposição difícil de suportar. Porém, é muito irritante ver educadores não compreenderem a importância de crianças como Jonas para a escola e simplesmente optarem por carimbar ele com um "não é exemplo para ser seguido".

É muito forte o momento no qual uma das educadoras da escola convida a cineasta para ter uma conversa sobre o Jonas. É triste como o menino por não ter interesse pelos conteúdos escolares é desqualificado por ela. Também acho pesado sobrecarregar adolescente ou crianças com bom desempenho escolar como "exemplos a serem seguidos".

Sempre penso que a crianças e adolescentes deviam ter liberdade para SER e PONTO. Unicamente SER já devia bastar e Jonas É. Só isso já faz dele um personagem e tanto.

O filme está em cartaz até 29 de março nas principais capitais!


quinta-feira, 16 de março de 2017

Pequeno dialogo...


Hoje, sentada nos bancos de pedra do espaço próximo a piscina onde venho praticando natação, olhei para minha companheira de aula e disse:

"Sinto que a melhor parte da minha rotina atualmente é sentar aqui depois da aula nesse vento com essas árvores."

 Ela respondeu:

"É a melhor parte da minha também."


Só queria registrar isso mesmo...

quinta-feira, 9 de março de 2017

A copa das árvores: uma nota sobre gratidão


Estou apaixonada pela experiência de sentar em um banco de pedra, olhar para cima e observar a copa das árvores e o azul do céu além delas.

Quando o vento ou a briza passa e bate em mim, nas folhas, nos galhos e em tudo o mais sinto uma gratidão por tudo e por nada.


Nesses momentos sinto uma alegria tranquila por existir, uma sensação de equilíbrio no meio do meu desiquilíbrio cotidiano.

Estando assim, nesse animo sereno, um pé dentro e outro fora do devaneio, é muito fácil acreditar na probabilidade do milagre, da magia ou até evolução humana. Quem sabe o que raios esses ventos carregam ou quais segredos as árvores sussurram através de suas folhas?!?!?

domingo, 5 de março de 2017

Onde cantam os pássaros de Evie Wyld


Ler "Onde contam os pássaros" da Evie Wyld é experiencia inusitada tanto por não ser narrado de forma linear como por contar uma história cheia de violências sem apelar para o drama. As armas que a Wyld usa para conta a história de uma criadora de ovelhas mistérios foi o lirismo suave diluído em texto que mesmo não linear se mostrou de fácil compreensão.

Nele encontramos a história de Jake, uma criadora de ovelhas que mora sozinha em uma ilha com seu cachorro. Quando nós a encontramos pela primeira vez algo estranho está ocorrendo a seu rebanho, animais andam sendo vitimados por algo ou alguém e por isso ela precisa sair de sua toca em busca de algum tipo de ajuda e a partir daí acompanhamos seu cotidiano, a forma como ela lida (ou não) com sua vizinhança e as situações nas quais ela escolhe (ou não) se envolver.


Enquanto acompanhamos o desenrolar do problema presente de Jake descobrimos que ela é uma criatura arredia, desconfiada, amante da solidão, pouco afeita ao convívio social e cheia de segredos; uma criatura visivelmente desamparada. Para compreender o estado emocional e social presente de Jake é preciso viajar pelo seu passado e paralelamente a narrativa do presente da protagonista conhecemos também seu passado. Nos capítulos pares avançamos na busca de quem está maltratando as ovelhas e nos impares regredimos no tempo para descobrir o passado da protagonista e o que ele esconde.

Apesar da situação inusitada de hora está avançando no tempo e hora regredindo, a escrita de Evie Wyld é muito simples e leve, fácil de acompanhar e ler.  "O olho humano percebe movimentos antes de qualquer outra coisa", mas o coração precisa de um tempo a mais então muitas vezes a forma poética com a qual a autora conduziu a história me convidou a diminuir o ritmo de leitura para melhor aproveitar o texto e não rara foram as vezes nas quais precisei para e respirar para assimilar as situações nas quais a protagonista esteve envolvida.



A forma Evie Wyld contou a história da Jake me fez lembrar muito de "O Amante" da Margarite Duras"O papel de parede amarelo" da Charlotte Perkins Gilman e "O compromisso" da Herta Müller. Todos contam histórias de violência, enganos, escolhas equivocadas, magoas sempre fugindo da linearidade, escapando do drama e com uma simplicidade que não me fez chorar, mas me comoveu muito.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Agreste...


Reza o dicionário que Agreste é uma palavra que vem do latim agrēstis podendo ser utilizada como um adjetivo de dois gêneros e também um substantivo masculino. O adjetivo se refere aos campos; silvestre, selvagens ou o que contraria convenções citadinas; não cultivado, rústico, caracterizado pela aspereza, rigor, grosseria. Já o substantivo masculino se trata de uma zona fitogeográfica do Nordeste do Brasil, próxima ao litoral, entre a mata e a caatinga, de solo pedregoso e vegetação xerófila.

Nesses dias de Carnaval a Região fitogeográfica Agreste situada no estado de Pernambuco foi meu destino e pelo muito que amo essas terras de campos áridos, rústicos, ásperos e rigorosos sempre fico tentada a não deixar esses momentos passarem sem um registro.


Não é que eu não ame Recife, eu amo, mas além do litoral, longe da influência do mar tudo é tão diferente... Da forma como o sol esquenta nossas cabeças ao chão no qual pisamos, tudo é outro mundo. Um mundo mais solido no qual a areia da lugar a rocha e as pessoas parecer ser mais fortes e mais resilientes feitas de uma fibra mais difícil de ser romper, uma fibra agreste.


É difícil até escolher palavras para falar das pessoas do Agreste e do Sertão, pois vivendo no limite entre o muito pouco e o quase nada elas conseguem receber quem chega com uma generosidade difícil de acreditar.


Atualmente o interior do Nordeste enfrenta talvez a maior seca dos últimos cinquenta anos... É uma situação terrível, não só as plantações minguam como o gado seca ao sol. Ao longo das estradas não é raro encontrar carcaças de bois e bezerros secando a míngua. Qualquer que seja a crise que os habitantes da cidade passem nos últimos tempos me parece que lá é pior e mais difícil, mas incapaz de tirar a capacidade dessas pessoas de acolher quem chega com sorrisos, abraços e histórias.


Vez ou outra Claudineia me arrasta para visitar o povo dela e invariavelmente me emociona a forma como sou recebida, acolhida e respeitada. Nunca deixo de me impressionar como, mesmo envolvidas em um tecido de dramas, dificuldades e escassez, as pessoas não esquecem de serem gentis, acolhedoras e honestas em seus afetos.

Mais uma vez minhas andanças por esse mundo do Agreste beirando o Sertão foi repleta de aprendizados, abraços, sorrisos e bons momentos... Só agora mesmo, repassando as lembranças das nossas aventuras, analisando os momentos, não encontrando palavras adequadas para descrever as coisas e me perguntando o quanto esse post vai ficar sem um sentido claro, me bate vontade de chorar...


O Agreste, com sua natureza árida e pessoas fortes, consegue ser didático e lúdico ao mesmo tempo. São das coisas que abraçam enquanto ensinam sobre a importância de não cair e desmontar ou sobre como vez ou outras nós precisamos inventar truques para enganar a dor enquanto esperamos a próxima chuva no meio da maior seca de nossa história.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Aventuras de Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho e o que Alice encontrou por lá

Alguns livros são tão incríveis e exercem sobre nós um fascínio tão grande que uma leitura não basta. É como se eles tivesse voz e desejos próprios e de tempo em tempo simplesmente nos chamam para voltar e desesperadamente precisamos ir lá e reler por pura necessidade existencial.


"Aventuras de Alice no País das Maravilhas" e "Através do Espelho e o que Alice encontrou por lá" se encontra entre os livros que mais tenho relido nos últimos 15 anos e por incrível que pareça sempre me pego achando uma coisa diferente da que achei antes. Invariavelmente tenho concluído a leitura do texto do Lewis Carroll dizendo: "Agora eu entendi a história!", para depois de 2, 3 ou 5 anos reler e dizer: "Nossa! Como isso estava aqui e eu não vi?".


Não sei se os livros são possuidores do dom da transmutação ou se as pessoas se transformam através dos anos, talvez sejam os dois, livros e humanos, seres em constante processo de mutação. Quando mergulhei com Alice na "Toca do Coelho" rumo ao "País das Maravilhas" e "Através do Espelho" pela primeira vez senti uma aflição terrível. Tudo nos livros tinha tons de pesadelo, ninguém parecia dizer coisa com coisa, todos respondiam com perguntas... Nossa, quão grande foi meu alivio quando vi a menina acordar! Me senti acordando com e ela e decidi voltar a ler novamente sem a aflição de não saber se aquilo era real ou não.

Incrível como a gente se engana nessa vida! Viajar pelo Mundo das Maravilhas e Através do Espelho sem aflição não existe e não teria a minima graça. Se for para não me sentir aflita com as questões existenciais propostas pelos personagens é melhor nem ir.

Essa nova leitura da obra de Lewis Carroll colocou em grande evidencia para mim o quanto ele era critico a uma educação escolar meramente informativa. Enquanto cai na "Toca do Coelho" Alice tenta rememorar as coisas aprendidas na escola, informações enciclopédicas empurradas nela goela adentro, e mostra o quanto tentou digerir tudo e quão poucos resultados trouxeram esse esforço. Indo de encontro a forma como a educação infantil funcionava em meados do século XIX os habitantes do "País das Maravilhas" não empurram em Alice formulas e informações prontas, eles questionam, instigam e empurram a menina para o caminho da experiência.

Geralmente quando temos uma criança sob nossa tutela a sanidade nos leva a oferecer a ela orientações muito precisas, baseadas em nossas experiencias, de como ela deve agir ou não para obter sucesso. Porém, as pessoas com as quais Alice se encontra no mundo além da "Toca do Coelho" são loucas, elas não tem resposta nem para suas próprias charadas quanto mais para as da menina! Para aprender ela precisa encontrar pessoas, experimentar, caminhar, desbravar, ouvir, falar, correr, recitar as poesias...


Também é imperativo falar dos encontros da menina com os habitantes do estranho mundo no qual ela cai. A começar pela exótica Lagarta com seu narguilé que não pergunta: "Qual seu nome?", mas "Quem é você?". Em um dia normal essa já não é uma pergunta das melhores, imagina em um dia no qual você diminuiu, cresceu, falou com animais, foi confundida com outra pessoa, foi pra lá e pra cá meio sem rumo em um lugar desconhecido? Difícil! Alice se enerva, quer ir embora, da meia-volta, MAS a Lagarta não deixa:
"Volte!"chamou a Lagarta. "Tenho uma coisa importante para dizer!"
 A menina se vira e volta para ouvir:
"Controle-se", disse a Lagarta.
Já perdi as contas de quantas vezes na vida precisei me controlar para encontrar alguma ajuda para um problema difícil. No entanto, quando a Lagarta disse isso, fiquei na duvida entre chorar ou rir. Gente, isso é trolagem pura! Todos os outros encontros da criança parecem ser pontuados por esse tipo de sacanagem

Na frente da casa da Duquesa, Alice pergunta ao Lacaio: "Como faço para entrar?". O danado simplesmente tasca nela um: "Mas, afinal, você deve entrar? Essa é a primeira pergunta." Ela se irrita, resmunga e tudo e tal e pergunta: "Mas o que devo fazer?". Ao que ele responde: "O que quiser...". Junto com o fabuloso Gato de Cheshire, com o querido Chapeleiro Maluco, a Lebre de Março, o Lacaio com cara de sapo está no roll dos meus personagens favoritos.


Ainda sobre o roll dos personagens favoritos preciso reafirmar o quanto acho sensacional o dialogo de Alice com o Bichano de Cheshire:
"Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?"
"Depende bastante de para onde quer ir", respondeu o Gato.
"Não me importa muito para onde", disse Alice.
"Então não importa que caminho tome", disse o Gato.
"Contanto que eu chegue a algum lugar", Alice acrescentou a guisa de explicação.
"Oh, isso você certamente vai conseguir", afirmou o Gato, "desde que ande o bastante." (pag. 76/77)
Novamente não sei se é para rir ou chorar... Depois dessa só posso deixar registrado que o esforço da minha vida consiste em andar o bastante.

E o que fazer quando a gente escuta/ler o Chapeleiro falando do Tempo?
"Se você conhecesse o Tempo tão bem quanto eu falaria dele com mais respeito." (pag. 84)
Estou a trinta anos convivendo com o Tempo e cada ano tenho por ele mais respeito. Ele não é linear, constante ou medido tão facilmente quanto o relógio comum faz supor que seja. É conveniente acreditar que um dia tem 24 horas e um ano 365 dias, mas quem viveu suficiente sabe o quanto há anos que não cabem em um dia e dias que não cabem em um ano. Há eternidades que acabam em segundos e segundos que duram uma eternidade.


Apesar de ter a impressão de todos os habitantes do País das Maravilhas serem confusos e pouco dado a respostas fáceis, também tenho a sensação de não existir um senso de perigo no mundo abaixo da Toca do Coelho ou uma urgência na viagem feita pela menina. Bem diferente da trajetória dela "Através do Espelho", durante essa leitura se impregnou em mim uma sensação de insegurança profunda.


No "Outro Lado do Espero" a criança mais obtêm ajuda, pessoas para caminhar com ela e menos perguntas isso tudo parece existir para equilibrar um perigo real sempre a espreita. Alice parece correr o risco constante de se perder até mesmo de si mesma. Lembrei muito do mundo do "Outro Lado da Muralha" criado por Neil Gaiman que aparece em obras como "Stardust: o mistério da estrela" e "Os livros da magia" entre outros. No mundo invertido do espelho é possível encontrar personagens lendárias tradicionais saídos do folclore inglês seus contos populares, poesias e canções. Ela ainda precisa entrar na floresta e enfrentar trilhas perigosas para sua memória e identidade.


Gosto muito das considerações da Rainha Vermelha:
"... você tem que correr o mais que pode para continuar no mesmo lugar. Se quiser ir a alguma outra parte, tem de correr no mínimo duas vezes mais rápido!" (pag. 186).
"... lembre-se de quem você é." ( pág. 188)
Só Deus sabe o quanto uma vez dentro de uma floresta pode ser fácil esquecer quem se é ou seder a tentação se deixar seduzir pessoas e situações prontas a nos levar a esquecer nosso nome, origem, desejos e sonhos. Existe alguém que vez ou outra não foi convidado a barganhar qualquer parte de si em troca de uma ninharia e precisou se agarrar em um amigo tal como Alice se agarrou na Corsa para atravessar o bosque "em que as coisas não tem nome"?

E se eu gostei da Rainha Vermelha novamente me apaixonei pela generosa Rainha Branca. Quando Alice se desespera ela não oferece consolos vãos, doces ou ilusões, simplesmente diz:
"Considere a menina grande que você é. Considere a longa distância que percorreu hoje. Considere que horas são..." (pág. 227)
Não é sem motivos que o Gato questiona Alice em relação a quem ela é. De muitas formas, em momentos de desespero, o que nos salva é a possibilidade de considerarmos quem somos. Aliás, também acho delicioso o fato da Rainha Branca colocar em evidencia a distância percorrida, até mesmo as horas.


Desse encontro também destaco as coisas faladas a respeito de acreditar no impossível:
Alice riu. "Não adianta tentar", disse; "não se pode acreditar em coisas impossíveis.""Com certeza não tem muita prática", disse a Rainha. "Quando eu era da sua idade, sempre praticava meia hora por dia. Ora algumas vezes cheguei a acreditar em até seis coisas impossíveis antes do café da manhã..." (pág. 227/228)
Sei o quanto esse texto já está quilométrico, mas ainda gostaria de destacar o encontro da Alice com a Ovelha e o Unicórnio, pois ambos disseram coisas sobre as quais me pego pensando com constância.
"Pode olhar para a sua frente, e para os dois lados, se quiser", disse a Ovelha, "mas não pode olhar para tudo a sua voltar... a menos que tenha olhos na nuca." (pág. 230).
"Bem, agora que nos vimos um ao outro", disse o Unicórnio, "se acreditar em mim, vou acreditar em você..." (pág. 264).
Por todos os motivos aqui citados, e outros tantos não citados, só posso concluir esse texto gigantesco reafirmando meu amor pela obra de Lewis Carroll e meu desejo de continuar sendo um pouco Alice na vida. Ainda quero forças para consegui seguir o Coelho Branco, mergulhar na toca, chegar um mundo de maravilhas ou encontrar uma forma de ir através do Espelho para um mundo invertido perigoso mas cheio de pessoas generosas capazes de ajudar qualquer um a acreditar em si, no seu nome e na possibilidade do impossível.

Ah, fiz a releitura desse clássico em conjunto com o Alexandre do blog #DoQueEuLeio. Clique AQUI para conferir a resenha dele, bem mais sintética que a minha.