quarta-feira, 21 de junho de 2017

Solar: História de Origem [HQs]


Um das minhas paixões literárias mais brilhantes é a tal da História em Quadrinhos, desde criança tenho vontade de ter uma coleção gigante de HQs, mas preciso confessar: nos meus sonhos a coleção era feita de mangás. Só nos últimos anos comecei a olhar com afeto para o formato ocidental e passei a colecionar Graphics Novel, Marvel, DC e os autores nacionais.

Nesse contexto, minha vida com HQs tem sido uma aventura, um processo de descoberta no qual "Solar: História de Origem" ganhou um lugar especial e aconchegante. Nele somos apresentados a um super heróis brasileiro com direito a super poderes dialogando diretamente com os universos Marvel e DC, porém sem ligações diretas com ele.

Gabriel, protagonista da trama, filho de uma antropóloga com um xamã de uma das muitas tribos sobreviventes da Amazônia, um belo dia ele se ver visitando um sitio arqueológico e tem sua atenção cativada por algumas das pinturas rupestres. Com a força de um imã a pintura o convida ao toque, ele não resiste e tem um momento único, um tipo de despertar, algo que atordoa, queima e liberta algo dentro dele. Após esse momento entre as pinturas rupestres a aventura de Gabriel começa.

Claro, como um bom primeiro volume, a história precisa ser apresentada, o herói precisa descobrir seus poderes, encontrar um assistente, salvar pessoas e ter alguma revelação sobre seu passado. Tudo isso acontecer em "Solar: História de Origem" e deixa o leitor extremamente entusiasmado com a leitura. Wellington Srbek, Abel Vasconcelos e Cleber Campos tiveram o cuidado de retratar na arte a diversidade étnica do povo brasileiro, das cidades brasileiras e seus problemas de urbanidade.

 Foi uma delícia descobrir esse herói brasileiro! Recomendo muito!

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Peter Pan de J. M. Barrie [Literatura Infantil]

  
Se eu tivesse me auto-desafiado a ler e resenhar clássicos da literatura infantil e contos de fadas em 2017, não estaria lendo e resenhando com tanta frequência esses gênero. Como não me auto-desafiei, aqui estou para comentar mais um clássico da literatura infantil.

Ou, talvez, essa volta ao mundo literário da infância tenha a ver com a incrível sensação de vazio na qual me sentir envolvida, as vezes ainda me sinto, há algum tempo atrás. De muitas formas literatura infantil quando bem feita tem qualquer coisa pronta a abraçar; acolher; levar em conta o fantástico, o misterioso, o inexplicável; e, mesmo dentro de uma enorme complexidade, a literatura infantil é simples, simplicidade nesses momento é tudo.


A primeira sensação que tive lendo J. M. Barrie foi de uma profunda nostalgia da infância, existe qualquer coisa em nós que não sobrevive a infância. Esse sentimento foi intensificado ainda mais pela experiencia de ler a história em uma edição completamente ilustrada por Eric Kincaid.

Amo edições de bolso, são charmosas, cabem na bolsa e na palma da mão, mas nada produz uma imersão tão grande no mundo infantil e nas memórias de infância quanto ler um livro infantil em formato de livro infantil. Ler livros assim fazem o tempo voltar, me senti com nove anos de novo, senti saudades das minhas edições há muito desaparecidas de Simbad e Ivanhoé e da minha própria Terra do Nunca.


Quanto a história do Peter, apesar do quanto ela foi explorada pela mídia nas ultimas décadas é impressionante o quanto a narrativa de Sir James Matthew Barrie ainda tem a dizer.

Barrie conta a história de um menino em situação de rua, desamparado que vive com outras crianças em situação de rua e desamparadas na Terra do Nunca, um lugar no qual essas crianças são chamadas de "meninos perdidos" e não crescem. Toda aventura narrada no livro começa quando quando Peter rouba Wendy e seus irmãos do conforto do seu quarto as vésperas do Natal e os levar voando para essa terra de maravilhas e aventuras.

Confesso que várias vezes me peguei pensando se a aventura dessas crianças se deu em um mundo a parte ou se eles simplesmente vagaram pelas ruas de Londres e a imaginação infantil fez o trabalho de transformar a realidade em magia.


Quando Peter explica a Wendy sobre a origem dos meninos perdidos foi impossível não lembra do "Capitães de Areia" de Jorge Amado e daquelas crianças em situação de rua vivendo a aventura de existir a margem pelas ruas, becos, vielas e praia de Salvador. É desalentador pensar em crianças perdidas, se unindo para sobreviver, usando dos recursos da infância para enfrentar piratas e perigos.
"São os meninos que caem dos carrinhos quando as babás não estão olhando. Se não forem reclamados em sete dias, são mandados para longe, para a Terra do Nunca. Sou o chefe deles."
Muita gente se choca com a falta de limites morais de Peter, com a facilidade com a qual ele é capaz de sequestrar, matar e mutilar. O Capitão Gancho as vezes parece uma vitima e os piratas são homens para lá de desamparados, mas eu me pergunto, o que se pode esperar de uma pessoa a quem até o prazer de ouvir uma história é negado?

As "crianças perdidas" não contam com nenhum adulto para cuidar delas, vivem escondidas, a margem da sociedade em mundo cheio de possibilidades para aventuras, porém no qual é possível se passar inclusive fome. É verdade que existe Sininho, a fada mais ciumenta do multiverso, que é adulta e vive com as crianças, porém ela não assume o papel de cuidadora em momento algum.

E sobre ausência de adultos, é mentira dizer que na "Terra do Nunca" eles não existem. As sereias, os indígenas e os piratas são adultos, porém estão ocupados demais vivendo suas vidas e cuidando de suas próprias crias, para se ocuparem daquele bando de "pestinhas". E nesse ponto lembrei do Chaves do Roberto Gómez Bolaños vivendo em um barril, eternamente faminto, constantemente humilhado pelas crianças da vizinhança e tolerado pelos adultos por não ser violento. 


Ninguém humilha Peter e as crianças perdidas, pois elas são violentas, agressivas e só obedecem suas próprias regras. Vez ou outra tem um ato de generosidade aqui e ali pelo qual são recompensadas e também são capazes de estabelecer alianças, mas sob ameaça elas sempre reagem com ferocidade.
"- Sabe, disse Peter - não conheço história alguma. Os meninos perdidos também não.
- Que coisa! disse Wendy.
- Você sabe, perguntou Peter - por que as andorinhas constroem ninhos no beiral das casas? É para ouvir as histórias que contam para as crianças, à noite..."

As crianças perdidas são livres, assustam quando exercem sua liberdade e comovem quando mostram o quão carente de mães são. Uma vez instalada na toca das crianças Wendy vira a mãe de todas elas e com amor maternal assume todas as funções de mãe como se brincasse de casinha. Não é a toa que com o tempo a melancolia toma conta da menina e o desejo de voltar para casa surje em seu horizonte, para ela a Terra do Nunca não é nada lúdica.

E sobre carência de mãe, também me comove ao extremo a carência dos piratas. Para mim, eles são os meninos perdidos que sobrevivem a infância e Peter Pan não é um nome próprio e sim o titulo dado ao chefe dos meninos perdidos, uma vez adulto ele vira o Capitão Gancho em um ciclo sem fim. E isso me lembra a vida das crianças em situação de rua.
"- Pan, perguntou ele - quem é você?- Sou a juventude, sou a felicidade, respondeu Peter. - Sou um passarinho que acabou de sair do ovo.Era um absurdo, claro, mas, para o infeliz Gancho, era prova de que Peter não sabia quem era."

No mais, Peter Pan é uma história cheia aventura, magia. Recheada com seres fantásticos, magica, sensibilidade e provocações. Mesmo agora muito se pode falar sobre ela, é um clássico em si, uma história feita para provocar que não duvida da capacidade de compreensão do leitor e o leva a pensar sobre a realidade. Estou apaixonada por essa história!

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Princesas, Bruxas e uma Sardinha na Brasa [Literatura Infantil]


Sou apaixonada por contos de fadas, tanto por pura paixão literária quanto por todo potencial didático que o gênero contém em si. Além de seu potencial lúdico, sendo textos gostosos de se ler, também guardam em si muitos dos valores culturais das sociedades que os criaram e portanto são ótimos instrumentos para provocar debates e nos fazer pensar e repensar a vida.

Encontrar livros de contos de fadas não é algo difícil, autores e as editoras tem plena consciência do apelo desse gênero literário entre professores e crianças e não economizam nos lançamentos. Difícil mesmo é encontra livros nos quais os autores consigam equilibrar o caráter didático e lúdico do conto e construírem um texto tanto provocativo quanto bonito e divertido de ler. Não é um exercício tão fácil encontrar livros tão equilibrados quanto "Princesas, bruxas e uma sardinha na brasa".


Contando com Helena Gomes e Geni Souza no texto e Alexandre Camanho na arte, o livro possui oito histórias nas quais os personagens femininos ocupam lugares centrais como heroínas, vilãs, nem com uma coisa nem outra. De maneira inteligente as autoras revisitaram contos clássicos da literatura mundial, dialogaram com eles e criaram histórias nas quais o protagonismo feminino é explorado fugindo de esteriótipos ou até mesmo questionando eles.

Entre as histórias das autoras exploram as necessidades e buscas femininas - talvez até feministas - por educação escolar, letramento, liberdade, amizade e cumplicidade. Coisas que vão muito além de um casamento vantajoso com um príncipe com o qual se cruzou em um baile.


E se as autoras discutem o papel feminino na sociedade e dão voz aos nossos anseios, o Alexandre Camanho da cor e forma aos textos e se eu fiquei apaixonada pela arte dele em "Dragões, maçãs e uma pitada de cafuné" agora eu cheguei no nível do amor. As ilustrações casam lindamente com o texto e fazem do livro uma coisa linda para se ter na estante.


"Princesas, bruxas e uma sardinha na brasa" é o volume 2 da coleção "Contos e Contadoras" lançada pela Editora Biruta na qual as autoras usam o gênero conto de fadas para discutir temas relevantes sobre a sociedade na qual vivemos. No vol. 1 "Dragões, maçãs e uma pitada de cafuné" o tema foi ética, no vol. 2 foi o papel da mulher, o próximo, "Reis, moscas e um gole de morte" vai discuti sobre justiça e eu já estou ansiosa para conferir o resultado.

Se você ficou curiosa ou curioso com os livros e quiser da uma olhadinha na parte interna deles e nas primeiras páginas no site da Editora Biruta da para conferir as primeiras páginas do livros é só clicar AQUI para conferir "Princesas, bruxas e uma sardinha na brasa" e AQUI para conferir "Dragões, maçãs e uma pitada de cafuné". A editora também tem uma lojinha vitual na qual a gente pode encontrar todos os livros por um bom preço.

domingo, 7 de maio de 2017

Monstro do Pântano: Raizes


Encontrei com o vol. 1 da HQ "Monstro do Pântano: Raízes" integrante da coleção "Clássicos DC" na banca onde costumo comprar mangás e por muito ter ouvido falar desse personagem resolvi aproveitar a oportunidade de conhecer as origens do personagem pessoalmente e adorei.

Fiquei fascinada com o roteiro de Len Wein, a arte de Bernie Wrightson e a forma como eles construíram seu personagem dialogando clássicos da literatura ligados ao terror. Nos dois volumes da coleção "Clássicos DC" que reúne os 13 primeiros volumes da "Mostro do Pântano" publicados originalmente na década de 1970.


A primeira aparição do Monstro do Pântano foi na revista "The House Of Secrets" na qual é contada a história do jovem cientista Alec Olsen que possui uma vida feliz com sua bela esposa até ser vitimado pela inveja de um amigo e então se transforma em um monstro. A história de como Olsen se transforma no monstro verde e musgoso é contada em oito páginas e jamais é retomada quando Len Wein e Bernie Wrightson decidem a pedido dos chefões da DC retomar a história ele elaboram um começo novo.


Na série imortalizada por filmes, séries de tv e derivativos, o protagonista é o doutor Alec Holland o qual se muda para um galpão em um pântano para junto com sua esposa Linda Holland pesquisar uma formula para fazer vida vegetal florescer nos lugares mais áridos do mundo. Quando os dois começam a ter sucesso em sua empreitada chamam a atenção de criminosos cujas astucias transformam o doutor no Monstro do Pântano e destroem a vida de sua esposa.


Transformado em uma forma de vida vegetal o doutor Alec Holland em um primeiro momento não consegue se comunicar com as pessoas e acaba sendo caçado por amigos e alvo de sequestro, tramoias maquiavélicas e hostilidades que o lançam em diversas aventuras.

Nessas aventuras ele será obrigado desbravar castelos medievais localizados nas montanhas elevadas dos Bálcãs, encontrar com monstros sintéticos dignos de botar medo no próprio Doutor Victor Frankenstein, lobisomens em charcos obscuros, bruxas injustiçadas, fantasmas de escravos vingativos, dinossauros, viajantes do tempo, extraterrestres e até mesmo o Batman.


No entanto, o Monstro do Pântano é dotado de força e inteligencia, ele é quase indestrutível então pouco a pouco vai superando seus inimigos e até alguns amigos pelo caminho.


Cativante, com pinta de socialmente excluído, fora do padrão branco, alto, olhos claros tipo Batman ou Superman, o Monstro do Pântano é herói com estética de vilão e não por acaso os amigos que ele encontra pelo caminho também são personagens historicamente marginais como bruxas injustiçadas ou fantasmas de homens negros vitimas da escravidão.

Agora me digam, como não amar um personagem assim? Acompanhei as 13 aventuras escritas pelo Len Wein gostando muito de tudo e larguei ele com pena, desejando um reencontro futuro com essa criatura atormentada pela alegria que perdeu e pela incerteza do futuro.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Sense8 - Primeira Temporada


Não sou uma pessoa muito afeita a assistir séries, fazer maratona vendo milhares de episódios por dia e coisas do gênero. Apesar de ter interesse em várias produções, raramente me pego vendo alguma coisa, hoje, até mesmo ver filmes é uma atividade rara para  mim. Quando alguém questiona o porquê de ter assinado um serviço como a Netflix geralmente eu respondo: tenho irmãos e enquanto eles vem coisas eu fico em paz para ler.

Apesar de minha atual aversão a séries e derivativos durante o feriado de Páscoa uma amiga comentou sobre Sense8 e, em um impulso de momento, decidi para e ir conferir a série. Em consequência desse impulso, fiquei encantada com a sensibilidade da produção, morri de amores pelos protagonistas e coadjuvantes, ainda estou sob os efeitos da história.


Sense8 conta o que ocorre com a vida de oito pessoas espalhadas pelos muitos cantos do mundo quando elas descobrem possuir uma conexão profunda entre si e são capazes de partilhar emoções, sentimentos, memórias, habilidades, consciência e até mesmo seus corpos uns com os outros. Na contramão do que o senso comum poderia supor, em vez de entrar em conflito um com o outro essas oito pessoas, apesar de serem diferentes mesmo, não tendem ao conflito, elas caminham para o entendimento e esse é um dos pontos altos da série.

A ligação entre os sense8 é uma ligação empática, todos partilham a mesma condição no mundo, apesar de diferenças de gênero, cor, sexualidade, profissão e credo pertencem a uma unica especie e procuram compreender, ajudar e proteger um ao outro em meio as mais diversas situações que surgem em suas vidas.


Há, é claro, toda uma trama com conspirações, segredos, perseguição e o perigo iminente de que alguém do grupo seja assassinado a qualquer momento. Porém esse não é fio que me prendeu a história e seus personagens. O que prende é o fato de ser um trabalho surpreendentemente sensível as sutilezas das relações humanas. O roteiro privilegia as contradições nas relações, os traumas, afetos, perdas e ganhos característicos da vida familiar, amorosa ou mesmo das relações entre amigos.

Os diálogos são incríveis, as considerações e histórias dos personagens são mostradas com uma sensibilidade capaz de desconstruir tabus corriqueiros, desmontar o senso comum e nos fazer olhar para o outro com mais ternura a ponto de perceber o quanto poderíamos ser próximos caso nos permitíssemos forjar com convivência uma ligação independente do quanto o outro é diferente da gente.

Fiquei encantada com a série, com o enredo, com os personagens, a trama e a trilha sonora que me abraçou durante os desfechos de cada arco narrativo ajudando a assentar os sentimentos fortes e conflitantes despertados pela história.


Nosso mundo nunca foi tão conectado, de muitas formas nos últimos 500 anos nossa especie na contramão de qualquer sonho de mundo de ficção cientifica investiu muito mais em comunicação do que em qualquer outra coisa e ainda assim nós nos desentendemos. Se a tecnologia nos conecta nossa falta de empatia com o outro nos separa em ondas intolerância religiosa, racismo, transfobia, homofobia, machismo e interesses econômicos postos acima de tudo e qualquer coisa.

Assistindo a série eu me pego pensando que entre os sense8 esses conflitos são dissolvidos pois como eles partilham tudo o que são entre si as incompreensões se diluem... Eles se escutam intimamente e de repente se percebem como partes diferentes de um organismo único, sendo oito se tornam um e vice versa muitas e muitas vezes ao longo dos episódios.

Me ocorreu muitas vezes enquanto via essa série que essa história estranha com ares de ficção cientifica oferece uma possibilidade complexa e ao mesmo tempo simples para a resolução daquilo que atormenta nossa especie: empatia, conexão, ouvi o outro. Olhando de perto somos semelhantes, olhando de perto o outro deixa de existir e se transforma em próximo.